GUIA CLÍNICO DE PLANTÃO — CONDUTAS BASEADAS EM EVIDÊNCIA
- Versão: 1.0 | Uso: Consulta rápida, IA clínica, prescrição hospitalar
- Patologias: Pneumonia | AVC | Infecção Urinária | Diarreia | Convulsão
Escrito por: Edson Lucas Melo Sá
PARTE I — SEÇÕES TRANSVERSAIS
SEÇÃO 1 — MONITORAMENTO
1.1 CLASSIFICAÇÃO DO PERFIL DO PACIENTE
ESTÁVEL
- Definição: Sinais vitais dentro dos parâmetros normais, sem deterioração nas últimas 6 h, consciente e orientado.
Parâmetros normais de referência:
PA: 90–140 / 60–90 mmHg
FC: 60–100 bpm
FR: 12–20 rpm
SatO2: ≥ 95% em ar ambiente
Temperatura: 36,0–37,8 °C
Diurese: > 0,5 ml/kg/h
Glasgow: 15
RISCO INTERMEDIÁRIO
- Definição: Um ou mais parâmetros levemente alterados, porém sem comprometimento orgânico imediato. Exemplo: febre alta isolada, FC entre 100–120, SatO2 92–94%, alteração leve do estado mental.
GRAVE / INSTÁVEL
- Definição: Dois ou mais critérios de SIRS + disfunção orgânica, ou qualquer critério grave isolado.
Critérios de gravidade:
PA sistólica < 90 mmHg ou queda > 40 mmHg do basal
FC > 120 bpm
FR > 30 rpm
SatO2 < 90% mesmo com O2 suplementar
Glasgow < 13 ou queda de 2 ou mais pontos
Diurese < 0,3 ml/kg/h por 2 h consecutivas
Temperatura < 36°C ou > 39,5°C
1.2 FREQUÊNCIA DE MONITORAMENTO POR PERFIL
ESTÁVEL:
- Sinais vitais a cada turno (mínimo 3x/dia: 7h, 15h, 23h)
- Diurese: volume total por turno
- Estado mental: avaliação em cada contato de enfermagem
RISCO INTERMEDIÁRIO:
- Sinais vitais a cada 4–6 horas
- SatO2 contínua ou a cada 4 h
- Diurese horária se suspeita de instabilidade renal ou hemodinâmica
- Estado mental a cada contato
GRAVE / INSTÁVEL:
- Sinais vitais a cada 1–2 horas ou contínuos (monitorização cardíaca)
- SatO2 contínua
- Diurese horária obrigatória (sondagem vesical se necessário)
- Glasgow a cada 2 horas
- Considerar transferência para UTI/UCIN se deterioração progressiva
1.3 PARÂMETROS OBRIGATÓRIOS DE REGISTRO
Todo paciente internado deve ter registrado em CADA avaliação:
[1] PA (mmHg) — sistólica e diastólica
[2] FC (bpm)
[3] FR (rpm)
[4] SatO2 (%) — especificar se em ar ambiente ou com O2
[5] Temperatura (°C) — via axilar, oral ou retal
[6] Diurese (ml/h ou ml/turno)
[7] Estado mental — escala de Glasgow ou descrição (orientado / confuso / torporoso / comatoso)
[8] Dor — escala numérica 0–10 (quando aplicável)
1.4 QUANDO INTENSIFICAR O MONITORAMENTO
Escalar de estável para intermediário se:
- Qualquer pico febril > 39°C
- FC > 100 bpm sem causa evidente
- SatO2 < 95% em ar ambiente
- Queda de PA > 20 mmHg do basal
- Confusão mental de início agudo
Escalar de intermediário para grave se:
- Dois ou mais critérios de instabilidade simultâneos
- Não resposta à hidratação em 2 h
- Rebaixamento do nível de consciência (queda ≥ 2 pontos no Glasgow)
- Diurese < 20 ml/h por 2 h consecutivas
1.5 SINAIS DE ALERTA — QUANDO ACENDER O ALARME
⚠️ CHAMAR MÉDICO IMEDIATAMENTE:
- PA sistólica < 90 mmHg
- FC > 130 bpm ou < 40 bpm
- FR > 30 rpm
- SatO2 < 90% com O2 suplementar
- Glasgow ≤ 12 ou queda aguda de 2 pontos
- Ausência de diurese por 2 horas
- Crise convulsiva
- Dor torácica ou dispneia aguda intensa
- Temperatura > 40°C ou < 35,5°C (hipotermia = pior prognóstico que febre)
1.6 RACIOCÍNIO CLÍNICO
O monitoramento não é um ritual burocrático — é vigilância ativa. A deterioração clínica raramente é abrupta: quase sempre há sinais precoces nas 4–6 horas anteriores ao evento grave. O médico de plantão deve:
- Não delegar a interpretação dos sinais vitais apenas à enfermagem
- Revisitar os parâmetros pessoalmente ao menor sinal de piora
- Priorizar a tendência (piora progressiva) sobre o valor absoluto isolado
- Lembrar que em idosos e imunossuprimidos os sinais de alarme podem ser atenuados ou ausentes (ex: sepse sem febre, infarto sem dor)
SEÇÃO 2 — HIDRATAÇÃO
2.1 TIPO DE HIDRATAÇÃO — ORAL vs. ENDOVENOSA
HIDRATAÇÃO ORAL:
- Indicada em: paciente consciente, sem vômitos, com tolerância digestiva, depleção leve (perda < 5% do peso)
- Solução de reidratação oral (SRO) é preferível a água pura em diarreias
- Volume orientado: 30–40 ml/kg/dia + reposição de perdas adicionais
- Contraindicações absolutas à via oral: rebaixamento de consciência, risco de aspiração, obstrução intestinal, pós-operatório imediato
HIDRATAÇÃO ENDOVENOSA:
- Indicada em: impossibilidade de via oral, desidratação moderada-grave, sepse, vômitos incoercíveis, pré e pós-operatório
- Cristaloides isotônicos são a primeira escolha em adultos
2.2 CRISTALÓIDES: ISOTÔNICO vs. HIPOTÔNICO
SOLUÇÃO FISIOLÓGICA 0,9% (SF) — ISOTÔNICA:
- Composição: Na+ 154 mEq/L, Cl- 154 mEq/L
- Indicada em: maioria das situações de depleção volêmica aguda, manutenção em adultos sem distúrbios específicos
- Risco: acidose metabólica hiperclorêmica com volumes elevados (> 3 L)
- EVITAR em: hipercloremia, acidose metabólica pré-existente
SOLUÇÃO GLICOSADA 5% (SG) — HIPOTÔNICA:
- Distribuição: 1/3 intravascular, 2/3 intracelular
- Indicada em: hipoglicemia, manutenção calórica mínima, hiperosmolaridade com Na+ elevado
- EVITAR em: AVC agudo (hiperglicemia piora lesão neuronal), trauma craniano, edema cerebral
- NUNCA usar para reposição volêmica aguda ou com fenitoína (precipitação)
RINGER LACTATO:
- Alternativa ao SF com menor risco de acidose hiperclorêmica
- Composição mais fisiológica
- EVITAR em: hiperpotassemia, insuficiência hepática grave (lactato)
2.3 VOLUMES E AJUSTES POR PERFIL
ADULTO PADRÃO (70 kg, sem comorbidades):
- Manutenção: 25–35 ml/kg/dia = 1750–2450 ml/dia
- Reposição de déficit: avaliar grau de desidratação clínica
- Perdas patológicas: diarreia/vômitos = repor volume a volume estimado
IDOSO (> 65 anos):
- Volume máximo de manutenção: 20–25 ml/kg/dia
- ATENÇÃO: reserva cardíaca e renal reduzidas — risco alto de sobrecarga
- Infundir em no máximo 21 gotas/min (60 ml/h) como velocidade de manutenção
- Avaliar ausculta pulmonar a cada 2 h durante hidratação agressiva
CARDIOPATA (ICC, FE < 40%):
- Hidratação EV com extremo cuidado — preferir restrição hídrica
- Se necessário: máximo 500 ml em 4 h, com ausculta pulmonar prévia e posterior
- Evitar bolus rápidos
- Ter furosemida disponível para reversão de sobrecarga
PACIENTE RENAL (TFG < 30 ml/min):
- Reduzir volume de manutenção: 15–20 ml/kg/dia
- Monitorar K+ a cada 12–24 h (risco de hiperpotassemia)
- Evitar SF em grandes volumes (acidose hiperclorêmica)
- Contraindicação a Ringer Lactato se K+ > 5,5 mEq/L
REFERÊNCIA DE GOTAS/MINUTO:
- 7 gotas/min = ~21 ml/h = ~500 ml/24 h (manutenção restrita)
- 14 gotas/min = ~42 ml/h = ~1000 ml/24 h (manutenção padrão)
- 21 gotas/min = ~63 ml/h = ~1500 ml/24 h (reposição moderada)
- 33 gotas/min = ~100 ml/h = ~2400 ml/24 h (reposição agressiva)
2.4 RISCOS DA HIDRATAÇÃO EV
SOBRECARGA VOLÊMICA:
- Sinais: dispneia, crepitantes bibasais, edema de membros, turgência jugular
- Conduta: reduzir ou suspender infusão + furosemida 20–40 mg IV
HIPONATREMIA POR DILUIÇÃO:
- Ocorre com volume excessivo de solução hipotônica
- Sinais: confusão, cefaleia, convulsão
- Conduta: corrigir Na+ lentamente (< 12 mEq/L/24 h para evitar mielinólise)
HIPERPOTASSEMIA:
- Risco em insuficiência renal com SF em grandes volumes (Cl- compete com HCO3-)
- Monitorar K+ sérico se hidratação > 48 h
ACIDOSE METABÓLICA HIPERCLORÊMICA:
- Ocorre com SF 0,9% em volumes > 2–3 L
- Considerar Ringer Lactato como alternativa após 2 L de SF
2.5 SINAIS DE ALERTA — HIDRATAÇÃO
⚠️ SUSPENDER OU REDUZIR HIDRATAÇÃO SE:
- SatO2 em queda sem causa pulmonar nova
- Ausência de diurese após 500 ml de expansão (possível IRA oligúrica)
- Crepitantes pulmonares novos ou progressivos
- Edema agudo de pulmão
- Piora do edema periférico com desconforto respiratório
- K+ > 6,0 mEq/L
2.6 RACIOCÍNIO CLÍNICO
A regra prática é: hidratar para corrigir déficit, não hidratar para "manter soro." Todo paciente que tolera via oral deve ser encorajado a beber. A hidratação EV deve ter volume, velocidade e tipo definidos — prescrição de "soro a gotejar" sem parâmetros é uma conduta inadequada. Reavaliar necessidade de hidratação EV a cada 24 h e suspender assim que a via oral for restabelecida.
SEÇÃO 3 — ANTIBIOTICOTERAPIA
3.1 QUANDO INDICAR ANTIBIÓTICO
INDICAR SE:
- Infecção bacteriana confirmada ou altamente provável (clínica + laboratório + imagem)
- Sepse ou choque séptico (iniciar em até 1 hora após reconhecimento)
- Pneumonia (qualquer paciente internado com pneumonia presume-se indicação)
- ITU alta (pielonefrite, urossepse)
- Diarreia bacteriana invasiva (febre + leucócitos/sangue nas fezes)
- Celulite / fasciíte necrotizante
- Meningite bacteriana
NÃO INDICAR SE:
- Infecção viral (gripe, resfriado, bronquite viral, gastroenterite viral)
- Diarreia sem sinais de invasão bacteriana (aquosa, sem febre, sem sangue)
- Febre isolada sem foco definido nas primeiras 24 h (aguardar culturas)
- Colonização sem infecção ativa (ex: bacteriúria assintomática sem procedimento urológico)
3.2 ANTIBIÓTICOS POR PATOLOGIA
PNEUMONIA ADQUIRIDA NA COMUNIDADE (PAC) — INTERNAÇÃO:
- 1ª escolha (cobertura dupla): Ampicilina + Sulbactam 1,5 g IV 6/6 h
+ Claritromicina 500 mg IV 12/12 h
- Alternativa (alergia à penicilina): Levofloxacino 750 mg IV 1x/dia (7–10 dias)
- PAC grave (UTI): Piperacilina-Tazobactam 4,5 g IV 6/6 h + Azitromicina IV
- Duração padrão: 5–7 dias em PAC leve-moderada; 7–10 dias em PAC grave
ITU ALTA / UROSSEPSE:
- 1ª escolha: Ciprofloxacina 400 mg IV 12/12 h (se sensibilidade local > 80%)
- Alternativa: Ceftriaxona 1–2 g IV 24/24 h (melhor perfil em urossepse)
- Resistência suspeitada: Ertapenem 1 g IV 24/24 h
- Duração: Pielonefrite simples = 7 dias; Urossepse = 10–14 dias
DIARREIA BACTERIANA INVASIVA:
- 1ª escolha: Ciprofloxacina 400 mg IV 12/12 h (transição VO 500 mg 12/12 h quando tolerado)
- Alternativa: Metronidazol 500 mg IV/VO 8/8 h (se suspeita de C. difficile)
- Duração: 5–7 dias
- IMPORTANTE: Diarreia associada a antibióticos — considerar C. difficile antes de prescrescrever quinolona
AVC: Antibiótico SOMENTE se infecção secundária documentada (ex: pneumonia aspirativa)
CONVULSÃO: Antibiótico SOMENTE se meningite bacteriana confirmada ou suspeita forte
3.3 DOSES, VIAS E AJUSTES
AJUSTE POR FUNÇÃO RENAL (ClCr):
Ampicilina-Sulbactam
ClCr > 30: 1,5 g IV 6/6 h (dose padrão)
ClCr 15–30: 1,5 g IV 12/12 h
ClCr < 15: 1,5 g IV 24/24 h
Ciprofloxacina
ClCr > 50: 400 mg IV 12/12 h (dose padrão)
ClCr 30–50: 400 mg IV 18/18 h
ClCr < 30: 400 mg IV 24/24 h
Claritromicina
ClCr > 30: sem ajuste
ClCr < 30: reduzir dose em 50% ou ampliar intervalo
Ceftriaxona
Sem ajuste por função renal (eliminação biliar predominante)
Ertapenem
ClCr < 30 → reduzir para 500 mg IV 24/24 h
AJUSTE POR FUNÇÃO HEPÁTICA:
Claritromicina
Contraindicada em hepatopatia grave
Metronidazol
Reduzir dose 50% em cirrose Child B/C
Ampicilina + Sulbactam
Sem ajuste necessário
IDOSOS (> 65 anos):
- Calcular ClCr pela fórmula de Cockcroft-Gault (valores de creatinina sérica podem subestimar a disfunção renal)
- Atenção redobrada com quinolonas (risco de tendinite, prolongamento de QTc, confusão mental)
3.4 COLETA DE CULTURAS — QUANDO E COMO
COLHER ANTES DE INICIAR ANTIBIÓTICO sempre que possível:
- Hemocultura (2 pares de sítios diferentes): sepse, febre > 38,5°C + foco infeccioso, endocardite suspeita
- Urocultura: ITU de qualquer grau de gravidade
- Coprocultura: diarreia invasiva, diarreia prolongada > 3 dias
- Escarro (Gram + cultura): pneumonia grave, suspeita de tuberculose, imunossuprimido
NUNCA atrasar antibiótico em sepse grave por aguardar cultura — coletar e iniciar simultaneamente.
3.5 ESCALONAMENTO E DESCALONAMENTO
ESCALONAMENTO (ampliar cobertura):
- Piora clínica após 48–72 h de antibioticoterapia adequada
- Isolamento de germe resistente
- Suspeita de fungemia em imunossuprimido
- Febre persistente com novo foco
DESCALONAMENTO (estreitar cobertura):
- Após resultado de cultura com antibiograma
- Melhora clínica sustentada após 48–72 h
- Transição EV → VO assim que: febre < 24 h, tolerância oral, estabilidade hemodinâmica
- Descalonamento reduz custos, resistência e efeitos adversos — deve ser meta ativa
3.6 SINAIS DE ALERTA — ANTIBIOTICOTERAPIA
⚠️ REAVALIAR ANTIBIÓTICO SE:
- Febre persistente após 72 h de tratamento adequado
- Piora dos parâmetros inflamatórios (PCR, leucocitose progressiva)
- Surgimento de novo foco infeccioso
- Diarreia volumosa após início de antibiótico (suspeita de C. difficile)
- Rash cutâneo, urticária, broncoespasmo (reação alérgica)
- Lesão renal aguda progressiva (nefrotoxicidade)
3.7 RACIOCÍNIO CLÍNICO
O antibiótico certo no momento certo salva vidas — o antibiótico errado cria resistência e mata. Antes de prescrever, responder a 3 perguntas: (1) Tenho evidência de infecção bacteriana? (2) Qual é o foco mais provável? (3) Qual é o germe mais provável neste paciente e nesta comunidade? A dose, a via e a duração são tão importantes quanto a escolha do fármaco.
SEÇÃO 4 — TRATAMENTO SINTOMÁTICO
4.1 ANALGESIA
DIPIRONA (Metamizol):
- Indicação: dor leve a moderada, febre. Primeira escolha no Brasil para analgesia sistêmica.
- Dose: 1 g IV (2 ml) em 100 ml SF, infundir em 15 min. 6/6 h ou SOS.
- VO: 500 mg–1 g 6/6 h
- Contraindicações: hipotensão arterial (risco de queda de PA com infusão rápida), alergia ao metamizol, granulocitopenia.
- Efeito adverso principal: hipotensão se infusão IV rápida; agranulocitose (raro, ~1:1.000.000).
- NÃO USAR EM: pressão arterial < 100 mmHg sistólica sem compensação prévia.
KETOROLAC:
- Indicação: dor moderada a intensa de curta duração (pós-operatório, cólica, dor pleurítica, cólica renal).
- Dose: 30 mg IV/IM. Máx 120 mg/dia. Duração máxima: 5 dias.
- Contraindicações absolutas: insuficiência renal (ClCr < 30), sangramento GI ativo, uso concomitante de anticoagulante terapêutico, asma por AINEs, gestação, pós-operatório de cirurgia cardíaca.
- ⚠️ NÃO USAR em: ITU com lesão renal suspeita, cardiopata grave, idoso > 75 anos sem monitorização renal.
TRAMADOL:
- Indicação: dor moderada a intensa quando AINEs são contraindicados.
- Dose: 50–100 mg IV/IM 6/6 h. Máx 400 mg/dia.
- Contraindicações: epilepsia (abaixa limiar convulsivo — EVITAR em paciente com convulsão), uso de IMAO, insuficiência hepática grave.
- ⚠️ EVITAR em paciente com convulsão ativa ou histórico epiléptico.
MORFINA:
- Indicação: dor intensa (9–10), insuficiência cardíaca aguda com edema pulmonar, infarto agudo do miocárdio.
- Dose: 2–4 mg IV lento a cada 5–10 min, até controle da dor.
- Contraindicações: depressão respiratória, hipotensão grave, DPOC grave descompensado.
4.2 ANTITÉRMICOS
DIPIRONA:
- Primeira escolha para febre em internados
- Dose: 1 g IV 6/6 h ou SOS se T > 37,8–38°C
PARACETAMOL:
- Alternativa à dipirona, especialmente em alérgicos
- Dose: 500 mg–1 g VO/IV 6/6 h. Máx 4 g/dia (2 g/dia em hepatopatas)
- Vantagem: pode ser usado em grávidas e em situações onde AINEs são contraindicados
- ⚠️ CUIDADO com hepatopatas: reduzir dose obrigatoriamente
IBUPROFENO (VO):
- Alternativa em pacientes ambulatoriais com tolerância gástrica
- NÃO USAR IV em ambiente hospitalar para febre isolada sem indicação específica
- Contraindicado em insuficiência renal, úlcera ativa, gestação (3º trimestre)
CONDUTA EM FEBRE:
- Tratar febre > 38°C com antitérmico
- Não tratar febre < 38°C rotineiramente (febre é sinal — não esconder sem avaliar causa)
- Reavliar causa febril: hemocultura se > 38,5°C + foco infeccioso
- Hipotermia (< 36°C) = pior prognóstico — NÃO usar antitérmico, investigar sepse
4.3 ANTIEMÉTICOS
METOCLOPRAMIDA:
- Indicação: náuseas e vômitos de qualquer causa, esvaziamento gástrico retardado.
- Dose: 10 mg IV lento 8/8 h. SOS ou programado.
- Contraindicações: epilepsia não controlada (abaixa limiar convulsivo), obstrução intestinal mecânica, sangramento GI ativo, feocromocitoma.
- ⚠️ EVITAR EM PACIENTES COM CONVULSÃO.
- Efeito adverso: distonia aguda (mais em jovens < 30 anos) — tratar com biperideno 2 mg IV.
ONDANSETRONA:
- Indicação: náuseas/vômitos intensos, especialmente em oncologia, pós-operatório, quando metoclopramida é contraindicada.
- Dose: 4–8 mg IV lento 8/8 h.
- ⚠️ Prolonga QTc — cuidado em combinação com claritromicina, ciprofloxacina, haloperidol.
- Sem risco de distonia.
DOMPERIDONA (VO):
- Alternativa oral à metoclopramida, com menor penetração no SNC
- Dose: 10 mg VO 8/8 h
- Preferir em idosos e pacientes neurológicos
4.4 OUTROS SINTOMÁTICOS COMUNS
BUTILESCOPOLAMINA (BUSCAPINA):
- Indicação: espasmo gastrointestinal, cólica renal, biliar, uterina.
- Dose: 20 mg IV/IM 8/8 h SOS.
- Contraindicações: glaucoma, retenção urinária, hipertrofia prostática severa, íleo paralítico.
SALBUTAMOL (inalatório):
- Indicação: broncoespasmo, DPOC exacerbado, asma.
- Dose: 2,5–5 mg nebulização 4/4–6/6 h.
- Monitorar: FC (taquicardia reflexa), K+ (hipocalemia com doses altas).
4.5 SINAIS DE ALERTA — SINTOMÁTICOS
⚠️ SUSPENDER OU NÃO USAR:
- Ketorolac: se creatinina > 1,5 mg/dL, sangramento, idoso > 75 anos sem monitorização
- Tramadol: se paciente com convulsão ou epilepsia ativa
- Metoclopramida: se paciente com epilepsia não controlada ou distonia prévia por antieméticos
- Dipirona: se PA sistólica < 100 mmHg antes da dose
4.6 RACIOCÍNIO CLÍNICO
Tratar o sintoma sem conhecer a causa é perigoso. Analgesia e antipirese adequadas melhoram conforto e cooperação do paciente, mas não devem mascarar deterioração clínica. Reavaliação obrigatória após toda medicação sintomática EV.
SEÇÃO 5 — PROTEÇÃO GÁSTRICA
5.1 INDICAÇÕES REAIS — QUANDO USAR
INDICAÇÃO FORTE (usar rotineiramente):
- Uso de AINE sistêmico por mais de 3 dias em internação
- Corticoterapia sistêmica em doses altas (> 20 mg/dia de prednisona)
- Dupla antiagregação plaquetária (AAS + Clopidogrel)
- Anticoagulação terapêutica + qualquer AINEs
- Paciente em UTI com ventilação mecânica (profilaxia de úlcera de estresse)
- Internação em UTI com coagulopatia
- História de úlcera péptica ou sangramento GI prévio em vigência de AINE/antiagregante.
INDICAÇÃO RELATIVA (avaliar individualmente):
- Idoso > 65 anos + qualquer AINE
- Internação > 7 dias com múltiplas medicações gastrolesivas
- Estresse psicológico/fisiológico grave (sepse, politrauma, AVC grave)
NÃO INDICAR ROTINEIRAMENTE:
- Internação simples sem uso de AINE/corticoide/anticoagulante
- Apenas por "precaução" sem fator de risco identificado
- Em pacientes ambulatoriais sem uso de gastrolesivos
5.2 TIPOS DE FÁRMACOS
INIBIDORES DE BOMBA DE PRÓTONS (IBP):
- Fármacos: Omeprazol, Pantoprazol, Esomeprazol
- Mecanismo: inibição irreversível da H+/K+-ATPase (bomba de prótons gástrica)
- Potência: superior ao antagonista H2 — supressão ácida de 90–95%
- Dose hospitalar:
Omeprazol: 20–40 mg VO 1x/dia ou IV 40 mg 1x/dia
Pantoprazol: 40 mg VO/IV 1x/dia
- Indicação preferencial: úlcera ativa, sangramento GI, esofagite erosiva, uso de AINE de alto risco
- ⚠️ Interação importante: Omeprazol reduz ativação do Clopidogrel — USAR PANTOPRAZOL em paciente com DAPT
- Uso prolongado (> 8 semanas): risco de deficiência de Mg2+, B12, hipomagnesemia, osteoporose, infecção por C. difficile
ANTAGONISTAS H2:
- Fármaco principal: Ranitidina 50 mg IV / 150 mg VO
- Mecanismo: bloqueio do receptor H2 de histamina nas células parietais
- Potência: inferior ao IBP (~70% de supressão ácida)
- Dose IV hospitalar: 50 mg IV 12/12 h
- Indicação: profilaxia de úlcera de estresse em internados, quando IBP não disponível ou contraindicado
- ⚠️ Confusão mental em idosos (efeito anticolinérgico)
- ⚠️ Ajuste em insuficiência renal: ClCr < 50 → 50 mg IV 24/24 h
5.3 RISCOS DO USO INDISCRIMINADO
⚠️ USO DESNECESSÁRIO DE IBP/H2 CAUSA:
- Supressão ácida = favorece crescimento de C. difficile (diarreia grave)
- Pneumonia aspirativa (ácido gástrico é barreira antimicrobiana)
- Deficiência de B12 e Mg2+ com uso prolongado
- Interação medicamentosa (IBP-Clopidogrel = risco cardiovascular aumentado)
- Aumento de custos hospitalares sem benefício clínico
5.4 RACIOCÍNIO CLÍNICO
Gastroproteção é indicada com base em risco, não em reflexo automático. A prescrição de ranitidina ou omeprazol para todo paciente internado "por precaução" é uma prática inadequada. Avaliar sempre: este paciente tem fator de risco gastrolesivo ativo? Se sim: qual fármaco e por quanto tempo? Se não: omitir.
SEÇÃO 6 — ANTICOAGULAÇÃO PROFILÁTICA
6.1 QUANDO INDICAR PROFILAXIA DE TEV
AVALIAR RISCO COM ESCORE DE PADUA (internados clínicos):
- Score ≥ 4 = ALTO RISCO → indicar profilaxia farmacológica
- Score < 4 = BAIXO RISCO → profilaxia mecânica (meia elástica, deambulação precoce)
Principais fatores de risco (Padua):
- Neoplasia ativa (3 pontos)
- TVP/TEP prévio (3 pontos)
- Mobilidade reduzida ≥ 3 dias (3 pontos)
- Trombofilia conhecida (3 pontos)
- Trauma ou cirurgia ≤ 1 mês (2 pontos)
- Idade > 70 anos (1 ponto)
- ICC, IAM, AVC (1 ponto cada)
- Obesidade IMC > 30 (1 ponto)
- Infecção aguda (1 ponto)
REGRA PRÁTICA PARA PLANTÃO:
Todo paciente internado com mobilidade reduzida por doença aguda E sem contraindicação ao anticoagulante deve receber profilaxia.
6.2 TIPOS DE HEPARINA E DOSES
HEPARINA NÃO FRACIONADA (HNF) SUBCUTÂNEA:
- Dose profilática: 5.000 UI SC 12/12 h ou 8/8 h
- Indicação preferencial: insuficiência renal grave (ClCr < 30) — eliminação não renal
- Monitoramento: TTPA (geralmente não necessário em doses profiláticas)
- Vantagem: reversível com protamina; custo baixo
- Desvantagem: 2–3 aplicações/dia; maior incidência de HITT
HEPARINA DE BAIXO PESO MOLECULAR (HBPM):
- Enoxaparina:
Profilaxia padrão: 40 mg SC 24/24 h
Profilaxia intermediária (alto risco): 40 mg SC 12/12 h OU 60 mg SC 24/24 h
Peso > 100 kg: considerar 40 mg SC 12/12 h
ClCr < 30: reduzir para 20 mg SC 24/24 h ou usar HNF
- Vantagem: 1x/dia, menor risco de HITT, melhor biodisponibilidade
- Desvantagem: não totalmente reversível com protamina; custo maior
6.3 CONTRAINDICAÇÕES À PROFILAXIA FARMACOLÓGICA
ABSOLUTAS:
- Sangramento ativo significativo
- Plaquetas < 50.000/mm³
- AVC hemorrágico recente (< 3 meses)
- Neurocirurgia ou cirurgia ocular recente (< 24–48 h)
- Coagulopatia grave (INR > 3,0 sem anticoagulação intencional)
- Punção lombar programada nas próximas 12 h (HBPM) ou 4 h (HNF)
RELATIVAS (avaliar risco-benefício):
- Trombocitopenia (50.000–100.000/mm³)
- Insuficiência renal grave (usar HNF)
- Hipertensão grave não controlada (> 180/110 mmHg)
6.4 SINAIS DE ALERTA — ANTICOAGULAÇÃO
⚠️ SUSPENDER E CHAMAR MÉDICO SE:
- Sangramento ativo: hematúria macroscópica, melena, hemoptise, equimoses extensas
- Plaquetas em queda progressiva (> 50% em relação ao basal nas primeiras 2 semanas) → suspeita de HITT
- Hematoma no sítio de injeção com extensão progressiva
- TVP ou TEP clínico apesar de profilaxia (falha da profilaxia = indicar dose terapêutica)
6.5 RACIOCÍNIO CLÍNICO
TEV é uma das principais causas de morte hospitalar prevenível. A profilaxia mecânica isolada (meia elástica, compressão pneumática) é insuficiente em pacientes de alto risco clínico — a profilaxia farmacológica é obrigatória nesse grupo. Contudo, iniciar profilaxia sem avaliar risco de sangramento é igualmente perigoso. A equação é: risco de TEV vs. risco de sangramento — e deve ser refeita a cada 48 h.
SEÇÃO 7 — CONTROLE DA PRESSÃO ARTERIAL
7.1 QUANDO TRATAR PA EM CONTEXTO AGUDO
NEM TODA HIPERTENSÃO AGUDA REQUER TRATAMENTO IMEDIATO.
Diferenciar:
- Urgência hipertensiva: PA elevada sem lesão de órgão-alvo → redução em horas (VO)
- Emergência hipertensiva: PA elevada COM lesão de órgão-alvo → redução imediata (IV)
TRATAR IMEDIATAMENTE SE (emergência hipertensiva):
- Encefalopatia hipertensiva (confusão + PA > 180/120 mmHg)
- Dissecção aórtica aguda
- Eclâmpsia / pré-eclâmpsia grave
- EAP hipertensivo
- AVC hemorrágico com PA > 220/120 mmHg
- IAM com PA > 160/100 mmHg persistente
TRATAR COM CAUTELA (urgência) SE:
- PA > 180/110 mmHg assintomática → redução gradual em 24–48 h (VO preferível)
- PA > 160/100 mmHg com sintomas leves → avaliar causa (dor, ansiedade, bexiga cheia) antes de medicar
NÃO TRATAR SE:
- PA elevada reativa à dor → tratar a dor primeiro
- PA elevada por bexiga distendida → sondar ou orientar micção
- PA levemente elevada (140–160/90–100 mmHg) sem lesão de órgão-alvo → monitorar sem medicação EV
7.2 FÁRMACOS E INDICAÇÕES ESPECÍFICAS
ENALAPRILATO (IECA IV):
- Dose padrão: 1,25 mg (1 ampola) IV lento em 5 min. Repetir em 6 h se necessário.
- Dose conservadora: 0,625 mg (1/2 ampola) em situações de risco (idoso, hipovolemia, AVC)
- Indicação preferencial: urgência/emergência hipertensiva em adultos sem choque
- Contraindicações: gravidez, estenose bilateral de artéria renal, hiperpotassemia, hipotensão prévia
- Início: 15–30 min. Pico: 1–4 h. Duração: 6–8 h.
- ⚠️ Risco de hipotensão severa em hipovolêmicos → hidratar antes se necessário
HIDRALAZINA IV:
- Dose: 10–20 mg IV lento a cada 4–6 h
- Indicação: emergência hipertensiva em gestantes, eclâmpsia
- ⚠️ Taquicardia reflexa — usar com beta-bloqueador em cardiopatas
NITROPRUSSIATO DE SÓDIO:
- Dose: 0,25–10 µg/kg/min IV contínuo (UTI)
- Indicação: crise hipertensiva grave (emergência), dissecção aórtica (com beta-bloqueador)
- ⚠️ Apenas em UTI com monitorização contínua — risco de toxicidade por cianeto
LABETALOL IV:
- Dose: 20–80 mg IV bolus a cada 10 min (ou infusão contínua 0,5–2 mg/min)
- Indicação: emergência hipertensiva em cardiopatas, AVC hemorrágico
- ⚠️ Contraindicado em asma, bradicardia, BAV 2º–3º grau, ICC descompensada
NIFEDIPINA SUBLINGUAL:
- ⛔ NÃO USAR — descontinuado para crises hipertensivas (queda de PA imprevisível e rápida = AVC/IAM)
7.3 METAS DE PA POR CONTEXTO
- Urgência hipertensiva: reduzir PA em 20–25% em 1–2 h; atingir < 160/100 em 24 h
- Emergência hipertensiva: reduzir PA sistólica em 20–25% na 1ª hora; não normalizar abruptamente
- AVC isquêmico sem trombólise: tolerar até 220/120 mmHg nas primeiras 24 h
- AVC isquêmico com trombólise: manter PA < 180/105 mmHg durante e após trombólise
- AVC hemorrágico: meta PA < 140 mmHg sistólica (estudos INTERACT)
- Sepse/choque: meta PA média ≥ 65 mmHg (não PA sistólica isolada)
7.4 QUANDO EVITAR REDUZIR PA RAPIDAMENTE
⚠️ CUIDADO ESPECIAL:
- AVC isquêmico agudo: hipertensão é protetora para a penumbra isquêmica. Não tratar automaticamente.
REGRA: Só tratar se PA > 220/120 mmHg (sem trombólise) ou PA > 180/105 mmHg (com trombólise)
- Estenose de carótida ou artérias cerebrais: PA mais alta mantém fluxo distal à estenose
- Hipotensão ortostática severa: PA "normal" pode ser insuficiente para o basal do paciente
- Insuficiência renal crônica avançada: perfusão glomerular depende de PA mais elevada
7.5 RACIOCÍNIO CLÍNICO
PA elevada nem sempre é uma emergência. Antes de medicar: excluir dor, ansiedade, bexiga cheia, posicionamento incorreto do manguito. Tratar a causa antes de tratar o número. Em AVC isquêmico agudo, a regra é contraintuitiva: não tratar hipertensão, pois ela está sustentando a perfusão da penumbra isquêmica. O médico que normaliza a PA de um AVC isquêmico na primeira hora pode estar convertendo uma área de penumbra recuperável em infarto estabelecido.
SEÇÃO 8 — DIFERENÇAS ENTRE PROTOCOLOS — PONTOS CRÍTICOS
8.1 CONTROLE DE PA — DIFERENÇA CRÍTICA POR PATOLOGIA
PNEUMONIA / ITU / DIARREIA:
- Enalaprilato 1 ampola (1,25 mg) IV se PA > 160 mmHg — conduta automática
- Racional: sem risco de piorar isquemia orgânica; o risco da hipertensão supera o da hipotensão
AVC ISQUÊMICO:
- NÃO administrar anti-hipertensivo automaticamente
- Conduta: AVISAR O MÉDICO e aguardar ordem individualizada
- Racional: hipotensão mata a penumbra isquêmica — pode transformar AVC reversível em déficit permanente
- ⚠️ ERRO CRÍTICO DE PLANTÃO: aplicar o protocolo de "anti-hipertensivo se PA > 160" de outras patologias no AVC isquêmico.
CONVULSÃO:
- Enalaprilato em dose conservadora: 0,625 mg (1/2 ampola) IV 6/6 h — só se PA > 160 mmHg
- Racional: queda brusca de PA piora perfusão cerebral pós-ictal; dose menor = segurança adicional
8.2 VELOCIDADE DE HIDRATAÇÃO — DIFERENÇA POR PATOLOGIA
PNEUMONIA: 7 gotas/min (500 ml/24 h) — manutenção conservadora (reserva pulmonar comprometida)
ITU/UROSSEPSE: 21 gotas/min (1500 ml/24 h) — reposição ativa (sepse exige ressuscitação precoce)
AVC: 14 gotas/min (1000 ml/24 h) — manutenção padrão (evitar hipotensão E sobrecarga)
CONVULSÃO: 14 gotas/min (1000 ml/24 h) — manutenção + via zero até estabilização neurológica
DIARREIA: 21 gotas/min 8/8 h (1500 ml/24 h) — reposição ativa de perdas gastrointestinais
8.3 FREQUÊNCIA DE SINAIS VITAIS — DIFERENÇA POR PATOLOGIA
Padrão (por turno = 3x/dia): Pneumonia, AVC, ITU, Convulsão
Mais frequente (6/6 h): Diarreia (maior risco de instabilidade por desidratação aguda)
Horário ou contínuo: qualquer paciente com critérios de risco intermediário/grave
8.4 PROTEÇÃO GÁSTRICA — QUANDO É OBRIGATÓRIA vs. OPCIONAL
OBRIGATÓRIA (alto risco):
- Paciente com dupla antiagregação (AAS + Clopidogrel) → usar PANTOPRAZOL (não omeprazol)
- Paciente em uso de AINE + anticoagulante
- Idoso + AINE
ROTINEIRA EM INTERNAÇÃO (baixo-médio risco):
- Qualquer paciente em uso de AINE sistêmico (ketorolac)
- Ranitidina 50 mg IV 12/12 h é suficiente nesse contexto
NÃO OBRIGATÓRIA:
- AVC sem uso de AINEs e sem história de úlcera → ranitidina/IBP é opcional
- Convulsão sem gastrolesivos → avaliar individualmente
8.5 ERROS COMUNS DE PLANTÃO
[ERRO 1] Aplicar enalaprilato automaticamente no AVC isquêmico
→ Consequência: hipotensão + extensão do infarto cerebral
→ Correção: no AVC, avisar médico e aguardar ordem
[ERRO 2] Prescrever metoclopramida para náusea em paciente com convulsão
→ Consequência: abaixa limiar convulsivo → nova crise
→ Correção: usar ondansetrona 4–8 mg IV
[ERRO 3] Usar tramadol para dor em paciente com epilepsia
→ Consequência: crise convulsiva
→ Correção: usar dipirona/paracetamol; opioide se necessário (morfina é mais segura)
[ERRO 4] Diluir fenitoína em soro glicosado
→ Consequência: precipitação do fármaco no equipo → dose não administrada
→ Correção: fenitoína SEMPRE em SF 0,9%
[ERRO 5] Iniciar enoxaparina em AVC hemorrágico (ou AVC isquêmico sem exclusão de sangramento)
→ Consequência: transformação hemorrágica fatal
→ Correção: confirmar exclusão de hemorragia por TC antes de anticoagular
[ERRO 6] Não ajustar ciprofloxacina/ertapenem em insuficiência renal
→ Consequência: toxicidade por acúmulo
→ Correção: calcular ClCr e ajustar dose
[ERRO 7] Prescrever dipirona IV rápida em paciente hipotenso
→ Consequência: colapso circulatório
→ Correção: infusão lenta (15 min) em 100 ml SF; contraindicado se PA < 100 mmHg sistólica
8.6 RED FLAGS CLÍNICAS — SITUAÇÕES QUE MUDAM A CONDUTA IMEDIATAMENTE
- Paciente "confuso de repente" → hipoglicemia até prova em contrário: MEDIR HGT AGORA
- Febre em AVC → pneumonia aspirativa ou ITU nosocomial → coletar culturas + revisar indicação de ATB
- Diarreia durante ou após antibiótico → C. difficile → suspender ATB se possível + copro/toxina
- Rebaixamento de consciência em convulsão → estado de mal epiléptico → escalar para lorazepam + fenitoína
- Hipotensão em ITU tratada → urossepse não controlada → expansão + escalada de ATB + UTI
SEÇÃO 9 — INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
9.1 INTERAÇÕES DE ALTO RISCO (impacto clínico imediato)
CIPROFLOXACINA + CLARITROMICINA:
- Mecanismo: ambas prolongam QTc por inibição de canal de K+ (hERG)
- Risco: arritmia ventricular grave (Torsade de Pointes) → morte súbita
- Impacto clínico: REAL e potencialmente fatal
- Conduta: se usadas juntas (ex: pneumonia + ITU), solicitar ECG basal e repetir em 24–48 h
- ⚠️ Risco aumentado em: hipocalemia, hipomagnesemia, cardiopatia prévia, bradiarritmia
CLOPIDOGREL + OMEPRAZOL:
- Mecanismo: omeprazol inibe CYP2C19 → redução da ativação do clopidogrel (pró-fármaco)
- Risco: inibição plaquetária inadequada → maior risco de evento cardiovascular
- Impacto clínico: demonstrado em estudos; especialmente relevante em paciente pós-stent coronário
- Conduta: SUBSTITUIR omeprazol por PANTOPRAZOL (menor interação com CYP2C19)
HEPARINA (qualquer) + KETOROLAC/AINE:
- Mecanismo: inibição plaquetária (AINE) + efeito anticoagulante (heparina) = risco hemorrágico aditivo
- Risco: sangramento GI, hematomas extensos, sangramento no sítio de injeção
- Impacto clínico: clinicamente relevante, especialmente em idosos
- Conduta: se ambos necessários, usar menor dose e menor duração possíveis; monitorar fezes/Hb
FENITOÍNA + SORO GLICOSADO:
- Mecanismo: fenitoína precipita em pH ácido da SG 5% → cristais no equipo
- Risco: dose não administrada; flebite; embolia
- Impacto clínico: dose sub-terapêutica → crise epiléptica de rebote
- Conduta: SEMPRE diluir fenitoína em SF 0,9%; nunca em SG
ENOXAPARINA + CLOPIDOGREL + AAS (tripla):
- Mecanismo: anticoagulação + dupla antiagregação = risco hemorrágico muito elevado
- Risco: sangramento maior (GI, intracraniano)
- Contexto clínico: comum em AVC com FA ou pós-stent recente
- Conduta: evitar a combinação; se inevitável, tempo mínimo necessário + IBP + monitoramento rigoroso
9.2 INTERAÇÕES DE RISCO MODERADO (monitorar)
CLARITROMICINA + ESTATINAS (sinvastatina, lovastatina):
- Mecanismo: inibição de CYP3A4 → aumento dos níveis de estatinas
- Risco: miopatia, rabdomiólise
- Conduta: suspender estatina durante uso de claritromicina OU trocar por atorvastatina/rosuvastatina (menor interação)
CIPROFLOXACINA + VARFARINA:
- Mecanismo: inibição de CYP1A2 → aumento do INR
- Risco: sangramento
- Conduta: monitorar INR 24–48 h após início da ciprofloxacina; ajustar dose da varfarina
METOCLOPRAMIDA + ANTIPARKINSONIANOS (levodopa):
- Mecanismo: antagonismo dopaminérgico central → piora do parkinsonismo
- Risco: rigidez, bradicinesia, crise oculogírica
- Conduta: SUBSTITUIR por ondansetrona em pacientes com doença de Parkinson
METRONIDAZOL + ÁLCOOL / DISSULFIRAM:
- Mecanismo: inibição da acetaldeído desidrogenase
- Risco: reação tipo dissulfiram (rubor, taquicardia, vômitos, hipotensão)
- Conduta: orientar abstinência de álcool durante uso e até 48 h após
ENALAPRILATO + ESPIRONOLACTONA / SUPLEMENTO DE K+:
- Mecanismo: IECA retém K+ → risco de hiperpotassemia aditiva
- Risco: hiperpotassemia grave (K+ > 6,5 = risco de fibrilação ventricular)
- Conduta: monitorar K+ sérico 24 h após início do enalaprilato em pacientes usando poupadores de K+
9.3 COMBINAÇÕES A MONITORAR COM ECG
As seguintes combinações exigem ECG basal e monitoramento de QTc:
- Ciprofloxacina + Claritromicina (alto risco)
- Ondansetrona + Claritromicina
- Ondansetrona + Metadona
- Haloperidol + qualquer QT-prolongador
- Qualquer combinação de 2+ fármacos que prolongam QTc em paciente com hipocalemia
QTc normal: < 450 ms (homens), < 460 ms (mulheres)
QTc limítrofe: 450–500 ms → reduzir fatores de risco, monitorar
QTc > 500 ms → risco alto de Torsade → suspender um ou ambos os fármacos envolvidos
9.4 RACIOCÍNIO CLÍNICO
Interações medicamentosas não são teóricas — matam pacientes. As mais perigosas não são as mais raras: são as que ocorrem com fármacos de uso cotidiano no hospital. O médico de plantão deve ter 3 combinações gravadas em memória permanente: (1) ciprofloxacina + claritromicina → ECG; (2) clopidogrel + omeprazol → trocar por pantoprazol; (3) fenitoína + SG → nunca.
PARTE II — PROTOCOLOS POR PATOLOGIA
PATOLOGIA 10 — PNEUMONIA ADQUIRIDA NA COMUNIDADE (PAC)
DEFINIÇÃO OPERACIONAL:
Síndrome infecciosa do parênquima pulmonar adquirida fora do ambiente hospitalar ou nas primeiras 48 h de internação. Diagnóstico: clínica compatível (febre, tosse, expectoração, dispneia) + infiltrado radiológico novo.
CRITÉRIOS DE INTERNAÇÃO (qualquer um):
- CURB-65 ≥ 2: confusão mental, ureia > 50 mg/dL, FR ≥ 30, PAS < 90 ou PAD ≤ 60, idade ≥ 65
- SatO2 < 92% em ar ambiente
- Comorbidade descompensada pela pneumonia
- Incapacidade de ingestão oral / adesão ao tratamento
- Suspeita de germe resistente
CRITÉRIOS DE UTI (PAC grave — qualquer 1 maior OU 3 menores):
Maior: choque séptico, necessidade de VM invasiva
Menor: FR ≥ 30, PaO2/FiO2 < 250, infiltrado multilobar, confusão, ureia > 50, leucopenia < 4000, trombocitopenia < 100.000, hipotermia, hipotensão que requer agressiva expansão
--- MONITORAMENTO NA PAC ---
Estável: SSVV por turno (7h, 15h, 23h), SatO2 por turno
Risco intermediário: SSVV 6/6 h, SatO2 contínua
Grave: monitorização contínua, SatO2 contínua, diurese horária
Parâmetros críticos na PAC:
- FR: indicador mais sensível de deterioração pulmonar
- SatO2: meta ≥ 94% (atentar para DPOC: meta 88–92%)
- T°: tratar se > 38°C; hipotermia (< 36°C) = prognóstico grave
--- HIDRATAÇÃO NA PAC ---
- Padrão: SF 0,9% 500 ml/24 h a 7 gotas/min
- Racional: manutenção conservadora — paciente com reserva pulmonar comprometida; febre aumenta perdas insensíveis
- Aumentar para 21 gotas/min se: febre alta persistente, taquicardia > 100 sem causa cardíaca, sinais de depleção
- Reduzir ou suspender EV se: crepitantes novos, SatO2 em queda, dispneia piorando
- Dieta zero inicial se: rebaixamento de consciência, FR > 30, risco de aspiração
--- ANTIBIOTICOTERAPIA NA PAC ---
Cobertura dupla obrigatória (típicos + atípicos):
1ª escolha:
Ampicilina + Sulbactam 1,5 g IV 6/6 h
+ Claritromicina 500 mg IV 12/12 h
Alternativa (alergia grave a penicilina):
Levofloxacino 750 mg IV 1x/dia por 7–10 dias
PAC grave (UTI):
Piperacilina-Tazobactam 4,5 g IV 6/6 h
+ Azitromicina 500 mg IV 1x/dia OU Levofloxacino 750 mg IV
Suspeita de Pseudomonas (DPOC grave, uso prévio de antibiótico, bronquiectasias):
Piperacilina-Tazobactam OU Cefepime + Ciprofloxacina
Duração: 5 dias (PAC leve-moderada com boa resposta); 7–10 dias (PAC grave ou resposta lenta)
Transição EV → VO: após 48 h afebril + tolerância oral + estabilidade hemodinâmica
--- TRATAMENTO SINTOMÁTICO NA PAC ---
Febre: Dipirona 1 g IV se T° > 38°C
Dor pleurítica: Ketorolac 30 mg IV SOS (máx 5 dias; vigilar função renal)
Tosse intensa: não suprimir rotineiramente; se incoercível → tramadol ou codeína
Broncoespasmo associado: Salbutamol 2,5 mg nebulização 4/4–6/6 h
Oxigenoterapia:
- Indicar se SatO2 < 94% (< 92% em DPOC)
- Iniciar com cateter nasal 2–4 L/min; ajustar para atingir meta
- Máscara de Hudson ou Venturi se cateter insuficiente
--- PROTEÇÃO GÁSTRICA NA PAC ---
- Ranitidina 50 mg IV 12/12 h (indicada pelo uso de ketorolac + estresse de internação)
- Substituir por pantoprazol 40 mg IV se: história de úlcera, uso de anticoagulante, alto risco GI
--- ANTICOAGULAÇÃO PROFILÁTICA NA PAC ---
- Heparina sódica 5.000 UI (1 cc) SC 12/12 h
- Todo paciente com mobilidade reduzida por pneumonia
- Suspender se: plaquetas < 50.000, sangramento ativo, ClCr < 15 ml/min (ajustar)
--- CONTROLE DE PA NA PAC ---
- Se PA > 160 mmHg: Enalaprilato 1,25 mg (1 ampola) IV lento em 5 min
- Repetir em 6 h se necessário
- Monitorar PA a cada 15 min por 1 h após
--- EXAMES COMPLEMENTARES NA PAC ---
Obrigatórios:
- Hemograma completo
- PCR ou VHS
- Bioquímica: ureia, creatinina, Na+, K+, glicemia
- Radiografia de tórax PA e perfil
- SatO2 em ar ambiente (oximetria de pulso)
- Gasometria arterial: se SatO2 < 92% ou FR > 25 rpm
Opcionais (conforme gravidade):
- Hemocultura (2 pares): se T° > 38,5°C + CURB-65 ≥ 2
- Escarro (Gram + cultura): se PAC grave ou imunossuprimido
- Antígeno urinário de Legionella e Pneumococcus: PAC grave ou surto
- Procalcitonina: auxiliar na decisão de iniciar/suspender ATB
- Lactato: se suspeita de sepse
PRESCRIÇÃO MÉDICA PADRÃO DE INTERNAÇÃO — PNEUMONIA
Paciente referência: adulto de 60–65 anos, PAC moderada, sem comorbidades graves, internação em enfermaria
1. DIETA: Dieta pastosa ou líquida nas primeiras 24 h (avaliar deglutição). Progredir conforme tolerância.
Dieta zero se: FR > 30, rebaixamento de consciência, risco de aspiração.
2. MONITORAMENTO:
- Sinais vitais (PA, FC, FR, T°, SatO2) a cada turno (7h, 15h, 23h)
- Diurese por turno
- Reavaliar clinicamente se FR > 25 ou SatO2 < 94%
3. OXIGENOTERAPIA:
- O2 por cateter nasal 2–4 L/min se SatO2 < 94% em ar ambiente
- Meta SatO2: 94–98% (88–92% se DPOC)
4. HIDRATAÇÃO:
- SF 0,9% 500 ml IV a 7 gotas/min (24 h)
- Ajustar se febre persistente ou sinais de depleção
5. ANTIBIÓTICOS:
- Ampicilina + Sulbactam 1,5 g IV em 30 min — a cada 6 horas (6h / 12h / 18h / 24h)
- Claritromicina 500 mg IV diluído em 250 ml SF, infusão em 60 min — a cada 12 horas (8h / 20h)
6. ANTITÉRMICO / ANALGÉSICO:
- Dipirona 1 g IV (diluído em 100 ml SF, infundir em 15 min) — se T° > 38°C ou dor (SOS)
- Ketorolac 30 mg IV — se dor intensa / dor pleurítica (SOS; máx 5 dias)
7. PROTEÇÃO GÁSTRICA:
- Ranitidina 50 mg IV lento — a cada 12 horas (8h / 20h)
(Se alto risco GI: trocar por Pantoprazol 40 mg IV 1x/dia)
8. ANTICOAGULAÇÃO PROFILÁTICA:
- Heparina sódica 5.000 UI (1 ml) SC — a cada 12 horas (8h / 20h)
(Rodízio de sítios: abdômen ou coxa; não usar se sangramento ativo ou plaquetas < 50.000)
9. CONTROLE DE PA:
- Se PA sistólica > 160 mmHg: Enalaprilato 1,25 mg IV lento em 5 min (SOS)
- Monitorar PA a cada 15 min por 1 hora após a dose
10. EXAMES:
- Hemograma, PCR, ureia, creatinina, Na+, K+, glicemia (admissão)
- Radiografia de tórax PA e perfil
- Hemocultura (2 pares) se T° > 38,5°C
- Gasometria arterial se SatO2 < 92% ou FR > 25 rpm
11. CUIDADOS GERAIS:
- Balanço hídrico a cada turno
- Fisioterapia respiratória 1x/dia a partir do 2º dia se tolerado
- Elevar cabeceira 30–45° (prevenção de aspiração)
- Monitorar glicemia 2x/dia se diabético (HGT 7h e 19h)
12. INTERCONSULTAS:
- Pneumologia: se PAC grave, imunossuprimido ou não respondedor em 72 h
- UTI: se critérios de PAC grave (ver acima)
PATOLOGIA 11 — AVC ISQUÊMICO — SALA GERAL
PRESCRIÇÃO MÉDICA PADRÃO DE INTERNAÇÃO — AVC ISQUÊMICO
PATOLOGIA 12 — INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO (ITU) ALTA / UROSSEPSE
PRESCRIÇÃO MÉDICA PADRÃO DE INTERNAÇÃO — ITU ALTA / UROSSEPSE
PATOLOGIA 13 — DIARREIA AGUDA COM INTERNAÇÃO
PRESCRIÇÃO MÉDICA PADRÃO DE INTERNAÇÃO — DIARREIA AGUDA
PATOLOGIA 14 — CONVULSÃO / EPILEPSIA COM INTERNAÇÃO
PRESCRIÇÃO MÉDICA PADRÃO DE INTERNAÇÃO — CONVULSÃO
- UTI: se estado de mal epiléptico refratário
GLOSSÁRIO DE ABREVIAÇÕES
Escrito por: Edson Lucas Melo Sá