AVC isquêmico
Resumo:
Epidemiologia
Fatores de risco: HAS, DM2, dislipidemia, tabagismo, SAHOS, obesidade, sedentarismo;
Etiologias mais comuns: aterosclerose de grandes vasos; cardioembolia (FA);
Circulação anterior (ACI + ACM + ACA) é a mais comumente afetada.
Quadro clínico
Artéria cerebral média: “quadro clássico” → hemiparesia contralateral completa, pode estar associada à afasia (se acometimento do hemisfério dominante);
Artéria cerebral anterior: déficit (paresia) mais intenso em membros inferiores e sintomas psiquiátricos (apatia, abulia etc. – lobo frontal);
Vertebrobasilar: “salada de frutas” – ataxia, diplopia, paralisia facial, disfagia, tetraparesia etc.;
Artéria cerebral posterior (lobo occipital): déficit visual (campo visual).
Diagnóstico
TC de crânio: 1.º exame no PS → descartar hemorragias;
AngioTC arterial crânio + pescoço: útil para avaliar trombectomia mecânica;
RM de encéfalo: protocolo Wake-Up Stroke – paciente que dormiu bem e acordou com déficit (mismatch DWI/FLAIR - discordância entre as duas sugere AVCi
< 4,5 horas).
Tratamento
Trombólise química
Alteplase 0,9 mg/kg (10% em bolus, restante em 1 hora). Dose máxima 90 mg;
Sempre checar contraindicações à trombólise (PA, glicemia, INR, hemorragia digestiva etc.);
Tenecteplase: ainda não aprovada na Anvisa, mas consta na diretriz europeia: 0,25 mg/kg EV;
Possíveis complicações trombólise: transformação hemorrágica, angioedema orolingual:
Piora neurológica → suspender trombólise e realizar nova TC de crânio.
PRINCIPAIS CONTRAINDICAÇÕES À TROMBÓLISE QUÍMICA |
Pressão arterial sistólica > 185 OU diastólica > 110 |
AVC isquêmico ou TCE grave nos últimos 3 meses |
Plaquetas < 100.000; INR > 1,7; TTPA > 40; uso de DOACS nas últimas 48 horas; heparina de baixo peso molecular em dose plena nas últimas 24 horas |
Glicemia < 50 mg/dL |
Neoplasia cerebral intra-axial (ex.: glioblastoma) |
Endocardite bacteriana |
Neoplasia do trato gastrointestinal diagnosticada recentemente OU hemorragia gastrointestinal nos últimos 21 dias |
Área hipoatenuante extensa na TC sem contraste (> 1/3 do território vascular) |
Dissecção de arco aórtico |
História prévia de hemorragia intracraniana |
Suspeita de hemorragia subaracnóidea (HSA) |
Neurocirurgia (intracraniana ou intraespinhal) recente |
Trombectomia mecânica
Regra do AV6 (NIHSS ≥ 6; ASPECTS ≥ 6; até 6 horas de sintomas; AVC de circulação anterior – M1 ou ACI);
Paciente PODE receber trombólise + trombectomia, se preencher critérios!
Mismatch DWI/PWI: avalia área de penumbra salvável; trombectomia > 6 horas.
Craniectomia descompressiva
Pacientes com AVCi extenso (“maligno”) < 60 anos e até 48 horas de sintomas:
impede compressão causada pelo edema.
Profilaxia secundária
Aterosclerose de grandes vasos: AAS 100-300 mg/dia + estatina de alta potência. Se NIHSS < 5, DAPT por 21 dias, depois manter apenas um deles;
Cardioembolismo (FA): varfarina ou DOAC:
AVCi pequeno ou moderado, aguardar 24-48 horas;
AVCi extenso, aguardar 10-14 dias.
Introdução
Definição: “Desenvolvimento de déficit neurológico focal (às vezes global) súbito” (Organização Mundial de Saúde, 2017);
85% são isquêmicos e 15% hemorrágicos (intraparenquimatoso e HSA);
A cada minuto perdido no AVC, 1,9 milhões de neurônios morrem!
Fatores de risco
Fibrilação atrial (principal causa cardioembólica do AVCi);
Hipertensão arterial sistêmica (HAS);
Tabagismo;
Dislipidemia;
Diabetes mellitus;
Uso excessivo de álcool.
Etiologia
Diversas etiologias podem levar ao AVCi (Tabela 1):
aterosclerótica e cardioembólica são as principais.
Independente da causa, o evento final será a oclusão de uma artéria cerebral com infarto (morte neuronal).
Tabela 1. Principais subtipos de AVC isquêmico (classificação “TOAST”)
PRINCIPAIS SUBTIPOS DE AVC ISQUÊMICO (CLASSIFICAÇÃO “TOAST”) |
Aterosclerose de grandes artérias |
Cardioembolismo |
Lacunar ou infarto de pequenas artérias (3-20 mm) |
Outras causas (pouco frequentes) |
Origem indeterminada/criptogênico |
Fisiopatologia
Oligoemia benigna → representa o primeiro momento da obstrução arterial:
a região suprida pela artéria começa a “sentir” o déficit sanguíneo.
Penumbra → é a progressão da oligoemia:
ainda é potencialmente reversível.
Core isquêmico → morte neuronal:
não é mais “salvável”.
Neuroanatomia: vascularização arterial do SNC
Circulação anterior
É a principal circulação acometida no AVC isquêmico;
Trajeto: artéria carótida comum → bifurcação em artéria carótida interna e externa → artéria carótida interna emite ramos para as artérias cerebral anterior e média (Figura 1);
A artéria oftálmica é um ramo da artéria carótida interna. Nesses casos, seu acometimento pode cursar com quadro clínico de amaurose fugaz!
Engloba lobo frontal, parietal, parte superior do lobo temporal, núcleo da base.

Figura 1. Neuroanatomia - circulação anterior e posterior.
Tabela 2. Comparação da apresentação de AVCi de ACA e ACM.
Cerebral anterior | Cerebral média |
Paresia com predomínio de membros inferiores (distal > proximal) + déficit sensitivo; Abulia, mutismo, bradipsiquismo. | Hemiparesia contralateral (se AVC à esquerda, déficit será à direita) + hipoestesia fasciobraquiocrural; Afasia, se hemisfério dominante (geralmente o esquerdo). |
Circulação posterior
Artéria cerebral posterior (ACP); artéria basilar; artérias vertebrais;
Trajeto: duas artérias vertebrais se unem → originam a artéria basilar (irriga basicamente todo o tronco cerebral e cerebelo) (Figura 2);
Engloba tronco encefálico, cerebelo, tálamo, lobo occipital, parte inferior do lobo temporal.

Figura 2. Neuroanatomia da vascularização da circulação posterior.
Tabela 3. Comparação da apresentação de AVCi de cerebral posterior e vertebrobasilar.
Cerebral posterior | Vertebrobasilar |
Déficit de campo visual; Hemianopsia homônima contralateral. | Ataxia, disartria, disfagia; Alterações de nervos cranianos (por exemplo assimetria pupilar); Rebaixamento do sensório. |
Abordagem diagnóstica
Anamnese e exame físico
Avaliar o tempo de início dos sintomas (última vez que o paciente foi visto bem), evolução do quadro, uso de anticoagulantes;
Sinais vitais: frequência cardíaca, glicemia capilar e pressão arterial;
Exame físico direcionado (NIHSS);
Cuidado com os “imitadores” de AVC (exemplo: hipoglicemia).
Tabela 4. Manifestações clínicas do AVC isquêmico conforme a artéria acometida
Território acometido | Manifestações clínicas |
Artéria cerebral média | Hemiparesia contralateral + hipoestesia tátil fasciobraquiocrural; Afasia, se hemisfério dominante. |
Artéria cerebral anterior | Paresia com predomínio crural (distal>proximal) + déficit sensitivo; Abulia, mutismo, bradipsiquismo. |
Artéria cerebral posterior | Hemianopsia homônima contralateral +- ataxia. |
Vertebrobasilar (artérias vertebrais + artéria basilar) | Ataxia + disartria + disfagia + assimetria pupilar + rebaixamento do nível de consciência + desvio do olhar conjugado. |
Artéria oftálmica | Amaurose fugaz. |
Síndrome de Wallenberg
Principal síndrome neurovascular da circulação posterior;
Isquemia no território da artéria cerebelar posteroinferior (“PICA”) ou da artéria vertebral → danos na região dorsolateral do bulbo;
Hemiataxia ipsilateral, hipoestesia da face ipsilateral e do corpo contralateral;
“Síndrome alterna”: hipoestesia compromete a hemiface direita e o hemicorpo esquerdo (braquiocrural);
Pode apresentar também síndrome de Horner associada ipsilateral à lesão.
Escalas “NIHSS”
Tabela 5. National Institute of Health Stroke Scale (NIHSS).
Descrição | Escore |
Nível de consciência | 0-3 pontos |
Orientação | 0-2 pontos |
Resposta a comandos | 0-2 pontos |
Olhar | 0-2 pontos |
Campo visual | 0-3 pontos |
Movimento (paralisia) facial | 0-3 pontos |
Função motora MMSS | 0-4 pontos |
Função motora MMII | 0-4 pontos |
Ataxia | 0-2 |
Sensibilidade | 0-2 |
Linguagem | 0-3 |
Total 42 pontos → quanto maior a pontuação, mais grave o AVC.
Neuroimagem
TC de crânio – exame de escolha no pronto-socorro → excluir hemorragias;
AngioTC de crânio - avaliar obstruções proximais (M1) para elegibilidade para trombectomia mecânica;
RM de encéfalo:
para situações específicas: wake-up stroke (acordou com déficit) e avaliar trombectomia mecânica acima de 6 horas;
sequências mais precoces para avaliar infarto: difusão (DWI).

Figura 3. AVCi em território de artéria cerebral média.
Escore “ASPECTS”
Analisa achados tomográficos hiperagudos;
O escore vai até 10 pontos – reduz 1 ponto para cada região acometida → quanto maior o escore, melhor;
ASPECTS < 6: isquemia mais grave e subaguda - maior tempo de evolução;
Fundamental para elegibilidade de pacientes para trombectomia mecânica (≥ 6).
Wake-up stroke
Paciente foi dormir bem e acordou com algum déficit neurológico. Que horas exatamente ocorreu o AVC?
Nessa situação, quem vai definir o tempo exato do evento é a ressonância magnética por meio da comparação das sequências DWI (difusão) e FLAIR; se a DWI estiver alterada e FLAIR normal, significa que o AVC isquêmico ocorreu há menos de 4,5 horas e devemos trombolisar o paciente;
Essa diferença entre DWI e FLAIR é conhecida como “mismatch DWI/FLAIR”.
Tratamento
Trombólise química
Indicação: pacientes com déficit neurológico ≤ 4,5 horas e sem contraindicações;
Alteplase (ativador de plasminogênio tecidual) 0,9 mg/kg - máximo de 90 mg! 10% em bolus + restante em 1 hora, em bomba de infusão.
Atenção! A tenecteplase ainda não está aprovada pela Anvisa, mas consta na diretriz europeia: 0,25 mg/kg EV. |
Tabela 6. Principais contraindicações à trombólise química
PRINCIPAIS CONTRAINDICAÇÕES À TROMBÓLISE QUÍMICA |
Pressão arterial sistólica > 185 OU diastólica > 110 |
AVC isquêmico ou TCE grave nos últimos 3 meses |
Plaquetas < 100.000; INR > 1,7; TTPA > 40; uso de DOACS nas últimas 48 horas; heparina de baixo peso molecular em dose plena nas últimas 24 horas |
Glicemia < 50 mg/dL |
Neoplasia cerebral intra-axial (ex.: glioblastoma) |
Endocardite bacteriana |
Neoplasia do trato gastrointestinal diagnosticada recentemente OU hemorragia gastrointestinal nos últimos 21 dias |
Área hipoatenuante extensa na TC sem contraste (> 1/3 do território vascular) |
Dissecção de arco aórtico |
História prévia de hemorragia intracraniana |
Suspeita de hemorragia subaracnóidea (HSA) |
Possíveis complicações
Transformação hemorrágica - novo sinal neurológico:
interromper a trombólise e repetir TC de crânio na urgência;
crioprecipitado;
antifibrinolíticos como ácido tranexâmico;
complexo protrombínico.
Angioedema orolingual:
Anti-histamínicos + corticoide.

Figura 4. Transformação hemorrágica de AVCi em território de artéria cerebral média direita.
Trombectomia mecânica
Lembrem-se da regra do AV6;
O paciente pode receber trombólise química e realizar trombectomia mecânica, se tiver indicações! Um tratamento NÃO exclui o outro;
RNM de crânio: mismatch difusão/perfusão (DWI/PWI) auxilia a avaliar trombectomia em janela estendida(> 6 horas).
Tabela 7. Indicações para trombectomia mecânica.
REGRA DO AV6 |
Idade > 18 anos |
Tempo: até 6 horas do início dos sintomas |
NIHSS ≥ 6 |
ASPECTS ≥6 |
Escala de Rankin modificada: 0-1 (paciente independente, funcional) |
Circulação anterior: artéria carótida interna OU artéria cerebral média (porção M1) |
AVC isquêmico > 4,5 horas
Iniciar AAS 75-300 mg/dia:
se AVCi minor = DAPT;
Reduzir PA somente se PAS > 220 ou PAD > 120 mmHg - hipertensão permissiva;
Anticoagulação plena na fibrilação atrial:
início a depender da extensão do AVC.
Glicemia capilar entre 140-180 mg/dL;
Evitar hipertermia;
Avaliar presença de disfagia para decidir melhor forma de dieta;
O2 suplementar se SatO2 < 95%.
Craniectomia descompressiva
AVC isquêmico “maligno”: oclusão da M1 da artéria cerebral média levando à hipertensão intracraniana;
Indicações de craniectomia descompressiva:
Pacientes < 60 anos E até 48 horas do início dos sintomas;
NÃO é uma terapia “concorrente” à trombólise química ou trombectomia mecânica.
Profilaxia secundária
Tabela 8. Medidas gerais e profilaxia secundária no AVCi.
Público | Medidas |
Aterosclerose de grandes vasos |
|
Cardioembolismo (FA) |
|
Todos |
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